Deixei a vasilha de água cair e comecei a tremer. Não tive coragem de olhar para trás, não sei. Sempre fui tão corajosa. Mas nesse instante não era qualquer um que estava atrás de mim. Eu sabia disso, e o pior, não havia como reverter a situação.
Pouco a pouco fui recuperando a coragem e perguntei sem me virar:
- Eu pensei que você estava preso.
Procurei não esboçar nenhum sentimento de raiva ou medo. Tentei ser seca e direta, como aqueles detetives da Tv.
- É, mas a segurança dessa cidade não é lá boa coisa. Consegui escapar rapidinho. É incrível como os seguranças dormem em serviço - falou o assassino.
- O que você queria com aquelas mulheres e o dentista?
- Filhinha, filhinha, você é tão ingênua. Estou vendo que vou ter que contar a história inteira. Pelo menos vou ter um divertimento, te ver agonizar antes de te matar - nessa hora eu tive um arrepio pelo corpo inteiro, então esse seria o meu destino? - Quando você nasceu, sua mãe veio me pedir socorro, ela teve que inventar um mentira absurda para John acreditar que você era filha dele.
Ele soltou um pigarro então continuou:
- Mas aquela mentira não foi o suficiente. Ele veio conversar comigo, para ver se era verdade mesmo, você sabe né? Gente idiota. Começamos uma discussão muito interessante, uma hora eu perdi a paciência, não sou feito de ferro - ele agarrou meu braço e eu gritei.
Ele apertou ainda mais meu braço.
- Ei, ei mocinha. Você pode ter sua chance de sair viva daqui, mas apenas se ficar quietinha e escutar minha história.
Ele me "arremessou" em direção às camas e pela primeira vez vi seu rosto. Seus cabelos eram grisalhos e haviam muitos pés-de-galinha em torno de seus olhos. Seu rosto era mais parecido a de um senhor de média idade, em torno dos seus cinquenta anos, não a de um criminoso psicopata.
- Você não é meu pai - disse entre lágrimas e soluços.
- Espere. Vamos deixar os votos de carinho para o final. Talvez você esteja se perguntando: "Carlos, por que você sequestrou todas aquelas pessoas?". Simples. Eu queria saber o seu paradeiro. A sua mãe, ao saber o que eu tinha feito fugiu para essa minúscula cidade do interior. O Augusto, era dentista do seu pai, ele logo abriu o bico quando eu envolvi a filha dele. EU o trouxe pra cá por precaução. Mas ainda não sabia em que parte da cidade você estava. Sequestrei a sua professora, e a pediatra, bom, a pediatra estava junto quando a sequestrei!
- Mas isso acaba aqui Adamastor - olhei para o lado e minha mãe estava apontando uma arma para MEU PAI.
- Mãe?
- É esqueci desse detalhe. Sua mãe sabia de tudo isso e só tentou impedir quando soube que envolvia você.
- Não é verdade - minha mãe disse.
- Cala a boca, cala a boca! - ele avançou em minha mãe e começou a bater nela.
Com o susto e com o medo ela deixou cair a arma no chão. Eu pensei e agi rápido, peguei a arma. Naquele momentou minha precisão não poderia falhar. Atirei.
~~
Eu estava embrulhada em um cobertor, tremendo de remorso. Eu havia matado um homem. Eu havia tirado uma vida. Eu havia matado o meu PAI.
- Querida muito obrigada. Se fosse outra pessoa, não teria piedade de mim.
- Dona Carmen, você é minha mãe. Não tem como eu ter raiva de você. É pra isso que as filhas servem, não é? Tentar trazer alguma alegria, proteger, cuidar de sua mãe. Retribuir o que ela fez pela gente, quando éramos pequenos.
Abraçadas ali, no relento, rodeadas pela polícia e ambulância ficamos chorando, dizendo o quanto nos amávamos.
Apesar de achar errado o que minha mãe fez, eu tive a capacidade de perdoá-la. Pensei que nunca ia acontecer, mas com o passar do tempo esqueci, e vivi minha vida como se eu fosse uma garota normal. Na verdade eu era a filha do assassino, mas o que realmente importa é que não sou como meu pai. Sou um exemplo. Uma vitoriosa.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário